Nos tempos de Jesus, há três Herodes principais mencionados no Novo Testamento:
- Herodes, o Grande (37 a.C. – 4 a.C.): Foi o rei da Judeia no momento do nascimento de Jesus. Ele é conhecido por ordenar a “Matança dos Inocentes”, quando mandou matar todos os meninos em Belém com menos de dois anos, tentando eliminar Jesus (Mateus 2:16).
- Herodes Antipas (4 a.C. – 39 d.C.): Era um dos filhos de Herodes, o Grande, e governou a Galileia e a Pereia durante a vida adulta de Jesus. Ele é o Herodes que ordenou a decapitação de João Batista (Marcos 6:17-29) e esteve envolvido no julgamento de Jesus, durante a Paixão (Lucas 23:7-12).
- Herodes Arquelau (4 a.C. – 6 d.C.): Outro filho de Herodes, o Grande. Ele governou a Judeia, Samaria e Idumeia, mas foi deposto pelos romanos por ser um governante impopular e tirano (Mateus 2:22 menciona seu reinado após a morte de Herodes, o Grande, o que fez com que José levasse Jesus e Maria para a Galileia, em vez da Judeia).
1. Herodes, o Grande (37 a.C. – 4 a.C.)
Herodes, o Grande, foi um rei nomeado pelos romanos e governou a Judeia com mão de ferro. Seu reinado ficou marcado por uma série de grandes projetos de construção, incluindo a expansão do Templo em Jerusalém, o que lhe conferiu uma reputação como grande construtor. Herodes era de origem idumeia (não judeu de nascimento), mas se converteu ao judaísmo, o que complicava sua relação com o povo judeu, que o via como um estrangeiro.
- O contexto político: Herodes governava sob o patrocínio do Império Romano. Ele foi um político astuto, conseguindo manter sua posição, navegando as complexas lealdades dentro do império. Ele foi aliado de Marco Antônio, mas conseguiu cair nas graças de César Augusto, após a derrota de Antônio e Cleópatra.
- A Matança dos Inocentes: Herodes, o Grande, ficou famoso por sua crueldade e paranoia, especialmente por ordenar a execução de membros de sua própria família, incluindo sua esposa Mariamne e três de seus filhos, por medo de que eles tentassem usurpar seu trono. No contexto do nascimento de Jesus, Herodes, sentindo sua autoridade ameaçada pelos rumores de um “Rei dos Judeus” que havia nascido, ordenou a matança de todos os meninos com menos de dois anos em Belém e arredores (Mateus 2:16-18). Embora não haja confirmação externa desse evento específico nos registros históricos, ele está em consonância com o caráter violento e paranoico de Herodes.
2. Herodes Arquelau (4 a.C. – 6 d.C.)
Após a morte de Herodes, o Grande, seu reino foi dividido entre seus três filhos, conforme suas disposições testamentárias. Herodes Arquelau, um dos filhos, tornou-se etnarca da Judeia, Samaria e Idumeia.
- Governo impopular: Arquelau era considerado um governante brutal e incompetente. Sua tirania levou os judeus e samaritanos a protestarem contra ele, resultando em sua remoção pelo imperador Augusto. Seu governo foi tão impopular que, logo após sua destituição, os romanos decidiram anexar diretamente a Judeia como uma província romana, e ela passou a ser governada por procuradores romanos, como Pôncio Pilatos.
- Importância no Novo Testamento: Em Mateus 2:22, José temia retornar à Judeia com Maria e Jesus depois da morte de Herodes, o Grande, por saber que Arquelau estava governando. Isso o levou a mudar-se para a Galileia, que estava sob o controle de outro filho de Herodes, Herodes Antipas.
3. Herodes Antipas (4 a.C. – 39 d.C.)
Herodes Antipas, outro filho de Herodes, o Grande, foi tetrarca da Galileia e Pereia, territórios vizinhos da Judeia, mas fora da jurisdição direta romana. Ele governou durante a maior parte da vida de Jesus e desempenhou um papel importante em alguns eventos chaves do Novo Testamento.
- Relação com João Batista: Herodes Antipas foi o responsável pela prisão e execução de João Batista. João havia criticado publicamente Antipas por se casar com Herodias, esposa de seu meio-irmão, Herodes Filipe, o que ia contra as leis judaicas. Essa denúncia levou à prisão de João, e, eventualmente, à sua decapitação, sob o pedido de Herodias, durante uma festa (Marcos 6:17-29).
- Jesus diante de Herodes Antipas: Durante o julgamento de Jesus, Pôncio Pilatos enviou Jesus a Herodes Antipas, que estava em Jerusalém na época. Herodes, que já havia ouvido falar de Jesus, mostrou interesse em vê-lo realizar um milagre, mas Jesus permaneceu em silêncio. Herodes, após zombar de Jesus, o enviou de volta a Pilatos (Lucas 23:7-12).
- Conflitos com Roma: Embora Herodes Antipas tenha mantido sua posição por muito tempo, seu envolvimento em intrigas políticas e sua relação com Roma o levaram à sua queda. Ele foi deposto e exilado em 39 d.C., após ser acusado de conspiração contra o imperador Calígula.
Outros membros da família Herodes
Além de Herodes, o Grande, e seus dois filhos principais (Arquelau e Antipas), outros membros da dinastia herodiana desempenharam papéis menores no Novo Testamento:
- Herodes Filipe (tetrarca de Itureia e Traconites): Casado com Herodias antes de ela deixá-lo para se casar com Herodes Antipas. Filipe governou pacificamente uma região no norte da Galileia, mas não tem um papel tão proeminente no relato bíblico.
- Herodes Agripa I (41-44 d.C.): Neto de Herodes, o Grande, Agripa I aparece no livro de Atos. Ele perseguiu os cristãos e ordenou a execução do apóstolo Tiago (Atos 12:1-2) e prendeu Pedro (Atos 12:3-5). Sua morte é relatada em Atos 12:23, quando foi atingido por um anjo por não dar glória a Deus, morrendo de forma repentina.
Contexto Político e Religioso da Dinastia Herodiana
Os Herodes eram politicamente astutos, servindo como vassalos de Roma. No entanto, seus governantes, especialmente Herodes, o Grande, e Herodes Antipas, tentavam equilibrar as tensões entre o governo romano e o nacionalismo judeu.
- Tensões com o povo judeu: A dinastia herodiana, especialmente Herodes, o Grande, enfrentava tensões constantes com o povo judeu. Herodes era visto com desconfiança, não apenas por sua linhagem idumeia, mas também por seu apoio a Roma e pela introdução de influências helenísticas que ofendiam muitos judeus fiéis. Embora Herodes tenha tentado agradar os judeus reconstruindo o Templo, ele também construiu estruturas pagãs, como o porto de Cesareia, dedicado a César.
- Judaísmo e Romanização: Durante o período herodiano, havia uma crescente divisão entre aqueles que buscavam uma maior pureza religiosa e resistência ao domínio estrangeiro (como os fariseus e zelotes) e aqueles que aceitavam ou mesmo promoviam a romanização e a cultura helenística. Os Herodes tentavam navegar por essas tensões para manter seu poder, mas nunca foram plenamente aceitos pelos judeus.
Conclusão
Os vários Herodes mencionados no Novo Testamento desempenharam papéis cruciais durante os eventos centrais da vida de Jesus e dos primeiros cristãos. Eles representam uma dinastia marcada pela intriga política, violência e tensão religiosa, refletindo o cenário complexo em que Jesus viveu e iniciou Seu ministério. Esses líderes foram agentes tanto de perseguição quanto de acontecimentos que cumpriram as profecias bíblicas, pavimentando o caminho para a missão de Cristo.



